quarta-feira, 16 de julho de 2014

What happened to me [Long Post]

Há algum tempo enchi-me de coragem e escrevi este texto. E depois faltou-me a coragem de o publicar. Até hoje.

"Há uns meses fiz uma pausa no blog. Não tenho comentadores ou seguidores suficientes para que a falta tenha sido notada (acho eu), mas achei que tinha de, um dia, me justificar pela ausência. Não sei se é pela proximidade dos meus 22 anos, se é por outra coisa qualquer, mas hoje estou sem sono (para variar), e tive um acesso de coragem.

Já referi aqui N vezes que mudei de faculdade depois de acabar a licenciatura, para fazer o mestrado. E se relerem os posts neste blog entre Setembro e Dezembro de 2013, é fácil adivinhar que não tive um bom começo. Passei de uma faculdade pequena para uma grande. Passei de ter um pequeno grupo de amigos para não ter ninguém com quem falar. De repente tive de arranjar grupos para fazer projectos ao longo de todo o semestre no meio de montes de pessoas que nunca tinha visto na minha vida, habituar-me a um novo horário e a um novo espaço. No meio disto tudo o meu namorado começou a trabalhar e a ter muito menos disponibilidade para estar comigo. 
Consegui arranjar dois grupos com pessoas +- conhecidas (que conheciam o meu namorado), e arranjei outros dois grupos completamente aleatórios, com as primeiras pessoas que me responderam aos emails. Os grupos "conhecidos" correram relativamente bem. Os aleatórios, nem por isso.
O problema das candidaturas externas para mestrado é que a matricula é feita apenas 1 semana antes das aulas começarem - e nessa altura já maior parte das pessoas tinha grupo, restando aquelas pessoas que fazem os grupos à última da hora. Quando as aulas práticas começaram, os enunciados dos projectos foram publicados e o semestre começou a ficar pesado, comecei a ver no que estava metida: com a minha falta de capacidade de comunicação e a dificuldade em integrar-me, os dois grupos aleatórios começaram a ignorar-me. Começaram a trabalhar sozinhos, sem comunicarem (e eu tinha um medo desgraçado de não saber fazer nada por isso não comunicava também). Não os via nas aulas teóricas, muitas vezes também não os via nas aulas práticas - e quando via, éramos 2+1: duas pessoas que se conheciam e falavam entre si, e eu, ali ao lado mas completamente distante.

Com isto tudo, passei uns meses bastante maus. Sentia-me mesmo muito sozinha - não mantenho grande contacto com as minhas amigas do secundário porque não tenho intimidade suficiente, o meu grupinho de amigos da licenciatura seguiu para a frente com o seu mestrado e nunca mais ouvi falar deles e o meu namorado, apesar de estar sempre cá para mim, passou a estar muito mais ocupado. 

A minha vida era simplesmente casa-aulas e vice-versa. Tinha imensos furos entre aulas que passava numa sala de estudo com o meu portátil a ver séries e por vezes quase a dormir - sim, por duas vezes fiz uma pequena sesta em salas de estudo. Sentia que não percebia nada das cadeiras, sentia-me sozinha e depois das aulas acabarem vinha para casa onde passava mais horas sozinha, a cultivar pensamentos deprimentes e a chorar. Todas as semanas, mais do que uma vez por semana, eu tinha ataques de choro, daqueles compulsivos que demoram a parar. Acordava sempre com os olhos inchados e inclusive ganhei rugas.
O semestre foi passando. Um dos grupos ainda foi comunicando através de mensagens escritas num ficheiro txt na dropbox. Não fiz praticamente nada do projecto, mas eles estavam-se um pouco a borrifar para isso (e vai na volta tinham esperança que eu me espalhasse na discussão. Tive a sorte de ter estudado o projecto todo uns dias antes e de eles se terem atrapalhado imenso apesar de terem feito tudo - e tive a mesma nota). 
O outro grupo fez questão de se reunir comigo uma vez, para começarmos o trabalho. Depois da primeira reunião ficou combinado que "iríamos investigar um pouco melhor como fazer as coisas, para depois se dividir trabalho". 
Não ouvi mais nada deles. Entre o meu medo de fracassar e a minha timidez tive medo de comunicar, e como também não devia haver muito interesse da parte deles, chegou a ultima semana do semestre e eu mandei um email a perguntar como estavam as coisas.
A resposta chegou-me às seis da manhã de uma quinta feira, e dizia que eu já não fazia parte daquele grupo.
Eu, que apesar de preguiçosa sempre fui relativamente trabalhadora e boa aluna, tinha virado uma daquelas pessoas que não fazem nada, e pela primeira vez em 16 anos de estudante, ia chumbar (a uma cadeira, mas não interessa). Isso caiu-me em cima como uma bomba (ainda por cima depois de todo um semestre a sentir-me péssima).
Lembro-me demasiado bem daquele dia. De acordar com o som de email do telemóvel, de ler o email, de desatar imediatamente a chorar. Eram seis e meia da manhã e estive a chorar durante horas, até serem horas de o meu namorado acordar e eu lhe mandar uma sms a contar o que tinha acontecido, chorei até à exaustão. Depois fiz algo que não me orgulho muito, mas que ajudou ligeiramente a ultrapassar aqueles dois primeiros dias: recorri a tranquilizantes naquele momento para acalmar e voltar a dormir mais algumas horas, e depois de acordar continuei a tomá-los regularmente (eram valdispert e não abusei demasiado, não se preocupem), de modo a manter-me num estado de dormência.
Entre a exaustão do choro e a dormência dos tranquilizantes, passei os dois dias seguintes em pijama a fazer restart-tv a todos os episódios de big bang theory que encontrei - manter a cabeça ocupada, para não pensar em mais nada.
Depois veio o fim de semana. Fui a casa dos meus pais, continuei a ver episódios de big bang até à exaustão, e tive tempo para pensar. E fiz a minha primeira resolução para o ano novo: ao fim de tantos anos, a minha timidez tomou conta de mim e começou a afectar-me ao ponto de prejudicar a minha vida, e por isso mesmo resolvi procurar um psicólogo. Mal não podia fazer, não é verdade?

Depois disso, contei os segundos até acabar o semestre. Celebrei o meu terceiro aniversário de namoro a uma segunda feira (um jantar rápido) e resolvi vingar-me na sexta feira seguinte, aproveitei que tinha a casa por minha conta e convidei o namorado para um jantar de Natal a dois (visto que no dia seguinte eu ia para casa dos meus pais durante alguns dias), fizemos sangria e surpreendi-o com um cheesecake. Aproveitei os dias em casa dos meus pais para relaxar, pensar na vida e no meu futuro (e encher a barriga). Procurei psicólogos na Internet e tentei decidir se congelar a matrícula por algum tempo e ir trabalhar seria uma opção sensata (sim, eu sentia-me mal ao ponto de pensar seriamente nessa opção). Dormi imenso, resolvi concentrar-me em acabar o que restava do primeiro semestre e só depois pensar no futuro, e anotei na minha agenda mental um dia para marcar a primeira consulta de psicologia. 
Neste meio tempo, acabei por abandonar o blog. Sentia-me mesmo estúpida por estar nesta situação - apesar de achar que a atitude das outras pessoas não foi a mais correcta, a culpa acabou por ser maioritariamente minha. Depois de sofrer as consequências dos meus actos, queria recuperar, e afastar-me das coisas negativas - e um blog cheio de posts que foram escritos a chorar não era propriamente uma coisa positiva.
Pronto. Agora já sabem o que aconteceu. O objectivo era contar aqui também a peripécia de ter consultas de psicologia. Mas este post alongou-se imenso, por isso vai ficar para outra vez. Apesar de tudo, é bom desabafar!"


4 comentários:

Maria Inês Rouxinol disse...

Todos temos os nossos momentos altos e baixos na vida. É verdade que o fracasso custa, ninguém gosta de as coisas corram mal é certo, mas acho que sabes (e não me interpretes mal) que a vida tem altos e baixos, podes ter tido uma fase má, mas as coisas melhoram certamente.

Nestes últimos anos também tive momentos de autêntico desespero (com situações bastante complicadas, sendo que a que mais marcou foi o cancro foi diagnosticado à minha mãe), mas aprendi que não podemos baixar os braços. Há pessoas que gostam de nós, que se preocupam connosco e não merecem ver-nos embaixo. Apesar de seres tímida e nunca termos tido muito contacto uma com a outra, percebi facilmente que tens tendência para stressar com alguma rapidez. Já pensaste em frequentar aulas de ioga? Conheço casos em que ajudou bastante, não perdes nada em tentar :)

Vá força com isso ;)

Beijinhos*

Catarina disse...

Nunca pensei em aulas de ioga, mas é algo a considerar. Mas de qualquer modo tenho tido algumas consultas com uma psicóloga, que me "diagnosticou" ansiedade social (é um bocadinho diferente de simplesmente timidez). Tem sido uma enorme ajuda, inclusive para os meus stresses.

E as coisas têm vindo a melhorar, sim. É como se aqueles meses fossem uma descida a pique de montanha russa, e agora estou a subir, devagarinho :).


Maria Inês Rouxinol disse...

Eu própria também já pensei na ioga para tratar da ansiedade, consegui arranjar umas "brincadeiras" com a minha saúde. Claro, a ajuda especializada é uma mais valia, o que interessa é que te estejas a dar bem e a melhorar ;)

A vida é mesmo assim, tem altos e baixos, se não o tivesse tornava-se aborrecida :p

Vanessa disse...

Este texto podia ter sido escrito por mim - refiro-me às emoções: o stress, a timidez, ser considerada uma esquizóide pelos meus colegas por gostar de ficar no meu cantinho, o medo de falhar, e acabar mesmo por falhar. Aconteceu-me no meu 12º ano. O resultado foi mais do que uma disciplina perdida - foi o ano inteiro. Olhando para trás, acho que devia ter procurado ajuda na altura, mas não tive essa lucidez. Ainda bem que o fizeste e conseguiste retomar o caminho :)